A Constituição da Republica Portuguesa,<br>resistência e luta pela alternativa

Jorge Pires
Membro da Comissão Política do Comité Central

Submetido a uma política e a opções subordinadas aos interesses do capital monopolista e da integração capitalista europeia, Portugal foi arrastado, ao longo das últimas décadas, por sucessivos governos do PS, PSD e CDS para o declínio económico, o retrocesso social e a dependência, acompanhados no plano político pelo empobrecimento do regime democrático de que o confronto com a Constituição da República é o elemento mais visível.

No XIX Congresso do nosso Partido inscrevemos na Resolução Política que a democracia portuguesa enfrentava novos e mais inquietantes perigos.

O que veio a acontecer com uma ofensiva dirigida contra os seus elementos mais avançados e progressistas, numa linha de contínuo confronto e violação do texto constitucional, procurando novos pretextos para o desrespeitar, empobrecer a democracia e liquidar o regime democrático, uma nova fase visando a subversão da Constituição da República.

Constituição que apesar das sucessivas revisões continua a ser um texto fundamental, de referência e com conteúdo progressista e o garante de muitos direitos, constituindo por isso um sério obstáculo aos que a querem destruir. Mantém um programa de desenvolvimento e de democracia plena nas suas várias vertentes: política, social, económica e cultural que muito incomoda os que defendem um caminho contrário.

Com o governo do PSD/CDS, a crise foi servindo de justificação para a imposição de um conjunto de medidas inconstitucionais, que atacaram os direitos dos trabalhadores e degradaram as funções sociais do Estado, num processo de acentuação das desigualdades e de alienação da soberania nacional.

Foram anos em que se acentuou a subordinação do poder político ao poder económico e se desenvolveu uma operação de pressão e chantagem com que a União Europeia e círculos nacionais a ela associados procuraram manter intactas as políticas de exploração, empobrecimento e extorsão de recursos naturais, que usurparam o direito soberano do povo português a decidir sobre o seu destino e tomaram a Constituição da República Portuguesa (CRP) como um obstáculo ao êxito da sua ofensiva.

Foi um período em que a luta de massas assumiu uma dimensão muito significativa e em que se salientou o papel insubstituível da luta organizada dos trabalhadores e das populações.

Uma luta com dois grandes objectivos: resistir à ofensiva e defender direitos, mas também como factor de alargamento da consciência política para a urgente e inadiável ruptura com a política de direita e a construção da política patriótica e de esquerda.

Foi a luta de massas e uma intervenção determinada e consequente do PCP que levaram à derrota do governo PSD/CDS e a uma alteração da correlação de forças na Assembleia da República, abrindo caminho para uma nova fase da vida política nacional.

A possibilidade agora aberta de dar passos ainda que limitados para inverter o rumo de declínio imposto aos portugueses, possibilidade que não deve ser desperdiçada, torna ainda mais evidente o indispensável objectivo de ampliar a luta pela ruptura com a política de direita e a construção de uma política alternativa, patriótica e de esquerda e da alternativa política que a concretize.

Convergência e unidade

Como referiu o Secretário-geral do Partido na sua intervenção de abertura, «a opção não é entre conformarmo-nos com as limitações e dificuldades ou andar para trás. A opção é a de dar novos passos em frente. A opção é romper com a política de direita e adoptar uma política patriótica e de esquerda.»

A concretização deste objectivo por que lutamos depende sobretudo do esclarecimento, da consciência política, da força organizada, da vontade e da acção do movimento operário e popular.

Mas este é também um momento para a convergência e unidade dos patriotas, dos homens e mulheres de esquerda, dos trabalhadores e do povo, em defesa dos valores de Abril, em defesa da Constituição da República, de exigência de ruptura com a política de direita e pela afirmação de uma alternativa patriótica e de esquerda, para afirmar o primado dos interesses nacionais.

A CRP não só constitui um factor de condicionamento dos ataques aos direitos, como é um factor de legitimação da luta, como mantém princípios e disposições susceptíveis de constituírem orientação para políticas económicas e sociais capazes de, pela mão de um governo patriótico e de esquerda, retomar soluções e perspectivas de dimensão democrática e social.

Uma alternativa inseparável do desenvolvimento da luta de massas, da ampliação da acção de convergência de todos os patriotas e democratas identificados com esse objectivo, do reforço da influência social e política do PCP. Uma alternativa que exige do nosso Partido uma intervenção que contribua para o esclarecimento dos trabalhadores e do povo o que, não é demais referir, é um processo demorado, e que por isso o desânimo, a descrença, a falta de esperança, a abstenção, a desistência das escolhas políticas e eleitorais que melhor podem defender os interesses do povo da política de direita só ajudariam à continuação da política de direita.

Aos trabalhadores, aos democratas e patriotas, ao povo, apelamos a que acreditem nas suas próprias forças e convirjam no objectivo de recuperar para o povo português o direito de sermos nós próprios a decidir sobre o rumo que queremos para o nosso País e que reajam contra o desalento e a resignação.

A vida já nos ensinou que «Um povo não morre porque o oprimem, mas morrerá certamente se, antes da luta, abdica».

 



Mais artigos de: Em Foco

Um ano em imagens

Resumir em imagens um ano de luta e de intervenção, de marcantes acontecimentos políticos e sociais no País e no mundo, é sempre uma tarefa difícil e particularmente ingrata. Desde logo porque implica uma selecção, com toda a...

Intervenções<br>no XX Congresso

Prosseguimos neste número a publicação de intervenções e saudações proferidas no XX Congresso do PCP, realizado em Almada de 2 a 4 de Dezembro. Subtítulos da responsabilidade da Redacção

O movimento operário e sindical

Permitam-me que da tribuna do nosso XX Congresso envie uma saudação ao movimento operário e a todos os trabalhadores cujo exemplo, coragem e determinação animaram a luta de diversos sectores, e que quando tudo parecia inevitável e muitos baixavam os...

O sistema público de Segurança Social

Na senda dos governos anteriores, o governo PSD/CDS, ancorado no pacto de agressão e a pretexto da crise, desencadeou um dos mais profundos ataques da política de direita à Segurança Social. Subverteu os princípios de justiça distributiva que...

Sobre informação, propaganda<br>e comunicações electrónicas

O mundo vive uma acentuadada agudização da luta de classes. No plano ideológico e comunicacional a ofensiva imperialista, apoiada na rede de multinacionais da comunicação, assume enorme dimensão, com o objectivo de mistificar a natureza exploradora e...

Política de quadros

Desde o XIX Congresso, enfrentámos particulares exigências, novas tarefas e desafios, intensa actividade que não teria sido possível sem o empenhamento, esforço e dedicação de milhares de quadros do Partido. E aprovámos um conjunto...

Sobre a dívida pública

Um país endividado, sob permanente pressão, tutela e chantagem das instituições europeias, um país que não dispõe de política monetária, cambial e cada vez menos orçamental; um país em que boa parte das empresas...

A luta e a unidade anti-imperialista.<br>A luta pela paz

Vivemos um momento internacional particularmente complexo marcado pelo aprofundamento da crise estrutural do capitalismo em que o imperialismo intensifica a sua ofensiva violenta e multifacetada, com o agravamento da insegurança e instabilidade da situação na Europa e no...

Defesa Nacional e Forças Armadas

Falar da política de Defesa Nacional e Forças Armadas é falar do processo progressivo de transformação e padronização das Forças Armadas tendente à satisfação dos objectivos da NATO e da sua inserção...

Partido Comunista de Cuba

Não podíamos começar esta mensagem que vos dirigimos sem referir a profunda consternação que sofremos, o povo cubano, os povos latino-americanos e os povos do mundo. «Cuba está de luto. Cuba está de luta!». A 25 de Novembro de...

MPLA

Trazemos para todos vós uma saudação fraterna da Direcção do MPLA, dos seus militantes e simpatizantes que formulam votos de sucesso nos trabalhos do vosso Congresso. A realização deste Congresso é mais um exercício de...